A lembrança que tenho da casa de meus avós maternos é de uma construção secular bastante sólida, embora o reboco das paredes comece a se desfazer aqui e ali. Ela serviu de abrigo para várias gerações, assim como para a resignação de vovó Henriqueta e as cismas de vovô Pedro. Todas as manhãs, vovó abria os janelões da casa para que o ar do campo perfumasse os vários aposentos de poucos e toscos móveis. Na varanda, uma pesada mesa de madeira estava sempre adornada com uma toalha feita com pano de sacaria contornada com barrado de crochê, bordada com flores coloridas em pontos simples, onde um jarro de barro com flores frescas retiradas do jardim cultivado com carinho por vovó Henriqueta dava o toque final à decoração. Na ampla cozinha, além do fogão a lenha, cuja vivacidade das labaredas nos aquecia nas noites mais gélidas e nos convidava a degustar os doces em calda feitos com as frutas da época, havia um imponente guarda-louças que servia de cristaleira e cujos vidros das portas tinham gravados belos arabescos. Na mesa da sala de jantar, a toalha de algodão engomada tinha bordados em pontos nobres de beleza singular, bordados à luz esmaecida e bruxuleante de um candeeiro durante as longas noites de conversas com a família, cada desenho simbolizando um sonho de Henriqueta menina-moça, educada para casar e criar filhos... a mão enrugada acaricia os pontos coloridos do bordado e, nessa volta ao passado, o coração latejava de saudades daqueles idos longínquos quando tecia planos que pareciam saídos dos contos da carochinha.

Um comentário:

  1. Estava com saudade dos seus escritos,dos quais gosto muito.São tão reais,que me sinto vendo cada coisa que você descreve!
    Em breve estarei de volta por aqui.Grande abraço,
    Lady

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