A lembrança que tenho da casa de meus avós maternos é de uma construção secular bastante sólida, embora o reboco das paredes comece a se desfazer aqui e ali. Ela serviu de abrigo para várias gerações, assim como para a resignação de vovó Henriqueta e as cismas de vovô Pedro. Todas as manhãs, vovó abria os janelões da casa para que o ar do campo perfumasse os vários aposentos de poucos e toscos móveis. Na varanda, uma pesada mesa de madeira estava sempre adornada com uma toalha feita com pano de sacaria contornada com barrado de crochê, bordada com flores coloridas em pontos simples, onde um jarro de barro com flores frescas retiradas do jardim cultivado com carinho por vovó Henriqueta dava o toque final à decoração. Na ampla cozinha, além do fogão a lenha, cuja vivacidade das labaredas nos aquecia nas noites mais gélidas e nos convidava a degustar os doces em calda feitos com as frutas da época, havia um imponente guarda-louças que servia de cristaleira e cujos vidros das portas tinham gravados belos arabescos. Na mesa da sala de jantar, a toalha de algodão engomada tinha bordados em pontos nobres de beleza singular, bordados à luz esmaecida e bruxuleante de um candeeiro durante as longas noites de conversas com a família, cada desenho simbolizando um sonho de Henriqueta menina-moça, educada para casar e criar filhos... a mão enrugada acaricia os pontos coloridos do bordado e, nessa volta ao passado, o coração latejava de saudades daqueles idos longínquos quando tecia planos que pareciam saídos dos contos da carochinha.

O som do vento



Sempre que ouço o som do vento sinto tocar no meu coração uma melodia... 
a melodia da água que serpeia pelo leito do rio numa manhã de primavera, acalmando os pequenos seres que habitam em suas profundezas... 
como aquela doce melodia que, outrora, ouvia junto a ti.

O galo garboso



Habitada pelos que restaram da família - minha avó paterna, um tio, eu e meus irmãos, a casa não era grande, tinha poucos cômodos e assoalho de terra batida, circundada por um quintal coberto de mato e folhas secas; no jardinzinho mal cuidado sobressaíam uma roseira brava e um jasmineiro do cabo; os arbustos rentes à cerca do vizinho serviam de esconderijo quando brincávamos de esconde-esconde; no cercado do lado esquerdo da casa minha avó criava alguns gansos, cujos grasnados e bicadas não serviam para desestimular minhas brincadeiras; nos fundos, havia um poço com manivela, bastante fundo e estreito, que servia para abastecer a casa de água, e um tanque para lavar roupas que cheirava a lauril; a sombra das mangueiras que se distribuíam por toda a extensão do quintal refrescavam a casa nos dias quentes de verão. Nesse quintal reinava um garboso galo de crista vermelha e penas marrom-alaranjadas, que exibia suas esporas e observava tudo e todos esperando uma oportunidade para atacar; sua corte era formada por um punhado de galinhas, alguns patos e Fifiu, um frango de penugem cinza e rala que quando se atrevia ensaiar um canto era prontamente reprimido pelo rei do terreiro, que partia para cima dele com ferozes bicadas. 




Dona Luizinha



Apaixonada por Leônidas, rapaz gentil e bem apessoado, Luizinha casou ainda muito jovem. No dia do casamento sua mãe vaticinou que este não duraria nem três meses, que Luizinha não sabia o que era amor. Foi o bastante para que ela jamais reclamasse de seus problemas conjugais - embora o marido não deixasse faltar nada em casa, revelou-se um grande mulherengo. Luizinha fazia vista grossa, cuidava de seus afazeres com grande esmero, acreditando que, assim, ninguém sequer suspeitaria do sofrimento moral que a acometia. Assim Luizinha foi vivendo a sua rotina doméstica: a casa, um brinco de limpeza; os filhos e o marido bem cuidados. Leônidas nem imaginava que ela sabia de suas escapulidas. Um dia, quando regressava do trabalho, ele teve um mal súbito e faleceu. Luizinha não compareceu ao velório; os parentes e amigos insistiram para que fosse ao enterro. Com os olhos secos e um ar resignado, disse estar muito ocupada... ainda precisava polir a torneira do jardim...  

Solidão



A luz do início da manhã, filtrada pela cortina clara e refletida no espelho, iluminava o ambiente deixando ainda mais nítida nossa fotografia amarelada pelo tempo.  Fecho os olhos e tento disfarçar a solidão que a tua ausência me causa... sinto o morno roçar da tua respiração em minha nuca... que vontade de me trancar no quarto e nunca mais sair!

A casa mal-assombrada



Quando passava em frente daquela casa abandonada, em ruínas, com fama de mal-assombrada e que, apesar dos danos sofridos pela ação do tempo - tijolos maciços à mostra aqui e ali, vidraças e telhas partidas – ainda deixava transparecer a beleza da sua arquitetura, buscava recriar na minha imaginação o cotidiano dos seus antigos moradores. Sentada na amurada do alpendre ouvia os rumores vindos lá de dentro, uma mescla de vozes, risadas, lamentos, bater de asas de eventuais morcegos, ruídos de animais rastejantes e de roedores; pressentia vultos em trajes de época rodopiando no amplo salão, numa dança eternizada pelo som de um piano, que dava maior leveza àquele distante sarau. Embora a casa tenha sido demolida para dar lugar a uma nova construção, permanece viva nas recordações da minha meninice.

Sem nada de meu



Dei-me inteiroOs outros fazem o mundo (ou crêem que fazem). Eu sento-me na cancela, sem nada de meu. Tenho um sorriso triste e uma gota de ternura branda no olhar. Dei-me inteiro. Sobram-me coração, vísceras e um corpo... com isso vou vivendo.

 * Recorro a este poema de Rui Knopfli para homenagear o meu amigo/irmão Jorge Jovêncio Meirelles, já que o define com bastante propriedade. Dar-se por inteiro, compreendendo e aceitando o Outro como ele é, amando-o sem o sufocar, é o modo como Jorge busca alcançar a felicidade.

Pesadelos



Tenho sonhos recorrentes com casas em ruínas, abandonadas, habitadas por fantasmagorias lamurientas, rastejantes, vis... quanto mais envelheço, mais palpáveis se tornam; é como se eu tornasse à infância, a tudo o que me amedrontava deixando-me vulnerável; para não despencar nessa abissal, seguro-me nas margens do pesadelo numa vã tentativa para esquecer tudo o que sempre me fez sofrer.

Esperança



Em cada gota de orvalho busco me diluir nas linhas do horizonte; por entre os tempos sigo a trilha que separa a terra do mar; indescritível dor dilacera minha alma... como pude acreditar?... Imota sob o manto de folhas outonais - meu casulo dourado - com cada nesga luminosa de sol, busco reconstruir um novo tempo de Primavera.

Reminiscências

Eu corria pra ventar, pra sentir o vento em meu rosto e, assim, sentir como se pertencesse a outro mundo, um mundo mais feliz, onde pudesse ser livre, livre pra pensar, sonhar, um mundo de fantasias onde pudesse esquecer de tudo o que me fazia sofrer, longe das ameaças dos adultos que em mim descontavam suas frustrações e complexos através de castigos físicos e psicológicos.

Debruçando-me na margem do lago profundo das minhas reminiscências, em seus reflexos adivinho vultos mesclados às pretéritas e jamais superadas inquietações... 

Com o passar do tempo, tudo será perdido nos meandros da memória; os dramas do cotidiano, cenários e imagens interiores, tornar-se-ão apenas pó na implacável transitoriedade da imensidão cósmica, inimaginável, das camadas do tempo.

Numa curva do caminho, a casa parecia imersa no passado longínquo, mergulhada que estava numa paisagem inquietante tomada por ervas daninhas; nesse espaço invulgar eu iria dar início à minha busca por algum resquício da sua memória, rastros de eventuais segredos de família, fragmentos de retratos desbotados pelo tempo, de sentimentos fugazes guardados, talvez, em singulares caixas de papelão... prenúncio das inevitáveis perdas, assim como de inevitável solidão...

Nessa casa da minha meninice costumava espreitar, através da janela do quarto que eu dividia com minha irmã mais velha, as flores do jardinzinho da minha avó: rosas de vários matizes, lírios alvacentos, margaridas amarelas... Dentre as rosas sobressaía, por seu perfume, uma rosa singela, lilás, que minha avó chamava de Rosa Amélia mas nunca explicou porquê. Como num remate, a um canto havia um imenso pé de murta cujos murtinhos atraíam a passarada, que fazia grande algazarra com seus trinados e chilreios. Eram momentos de rara felicidade!

Apesar dos contratempos familiares, fui uma criança até certo ponto feliz. Vivia a “aprontar” com tudo e todos à minha volta. Um dos momentos que mais gostava era quando minhas tias e minha avó iam lavar roupas; nos fundos do quintal havia um poço de água cristalina, com um mecanismo para puxar a caçamba d’água através de uma manivela. Claro que não me deixavam nem chegar perto do poço, cuja profundidade e estreiteza significavam grande perigo para as crianças, mas eu ficava rodeando... enquanto elas lavavam as roupas, costumavam conversar sobre fatos rotineiros, contar algumas fofocas, histórias ocorridas no passado lá naquela terra distante, chamada Ucrânia, onde minha avó nascera... não raro, no melhor ponto da história, mandavam que eu me retirasse, porque “não era conversa pra criança”, o que me aguçava ainda mais a curiosidade; via de regra, esperava que se distraíssem e, às escondidas, ficava a ouvir aquelas “delícias”. 

Hesitante, entrei naquela casa sombria; em seu interior escuro e bolorento fitei os retratos que cobriam as paredes com indiferença - há muito perderam significado para mim. Temerosa, avancei para o seu interior deparando com o silêncio... o vazio... o nada...

Fui acossada pelo clima dos muitos anos de abandono; presa aos tênues fios do silêncio reinante, fui arrebatada a tempos pretéritos, numa sensação de que algo me empurrava ao encontro de recordações infelizes... e tudo começou quando eu era, ainda, muito criança; nessa travessia do tempo permaneci como uma substância doentia naquele recinto solitário, parecendo ouvir os gemidos lamurientos daqueles que o habitaram... ora, meras volatilidades do éter. 

Através da janela desabitada vejo as casas vizinhas, abandonadas ao rumor do vento, memórias apagadas... chaves irrecuperáveis da memória. Durante algum tempo fiquei observando o bucolismo da paisagem até que uma chuva miúda começou a cair molhando o vasto e espesso tapete de folhas; dentro, a casa fria, silenciosa, remete a um passado onde cenas, há muito nubladas, recomeçam a se delinear, a se revestir de cores e perfumes, burlando o esquecimento... que tudo leva para longínquas paragens, deixando meu coração vazio... à deriva. 

Mesmo sem ter noção da gravidade do que se delineava, nem do teor da despedida - pra vocês sua mãe morreu!... - algo soou-me falso. Contudo, apesar da minha ingenuidade, percebi que minha irmã se retraiu, murchou... o brilho e a alegria da infância ficaram, assim, para sempre perdidos. Ela amadureceu precocemente, tornou-se uma criança-velha:
 

“Minha alma talvez seja reta e boa; mas meu coração, meu sangue secreto, tudo isso que me dói, não a consegue manter ereta”  (Rilke).

Atraída pelas sombras debruço-me à pretérita amurada; observo os vultos que se mesclam à dança reflexa da superfície, num contraponto à vida concreta de perenes inquietações e anseios... preciso esquecer tudo o que me atormenta. Mesmo sem noção do teor da despedida, calei - o brilho, a alegria da infância, para sempre perdidos. Fruto de desencontros, a sensação de abandono é uma falha de chão jamais recomposta - dói tanto que minh’alma jaz por terra. Através de olhos com intenso brilho, minha imagem refletida devolve-me o olhar e, nesse breve instante, me difraciono: o semblante vincado, marcas da saudade, decepções e vivências do tempo...
 

Meu pai não foi a única vítima daquela bala que lhe varou o coração; o efeito borboleta daquele gatilho apertado pela mão de minha mãe se faz sentir em nossas vidas ainda hoje, cerca de seis décadas após o sucedido, atingindo todos à sua volta direta ou indiretamente. Bem que cada um de nós, à sua maneira, tentou ser feliz, em vãs tentativas vãs... e a autora daquele disparo jamais se deu conta do mal que nos fez, nem demonstrou qualquer resquício de remorso ou arrependimento daquele gesto tresloucado.
 

Em incontáveis noites a insônia foi uma companhia assídua; nos raros momentos em que me deixava dominar pelo sono, sonhava sonhos em torvelinho, vultos espectrais vinham me pegar... a certeza do abandono devorava-me o âmago. Imaginei uma mala – algo somente meu! - cujo interior abrigava um lar, bonecos representando minha família - morria de saudades de meus irmãos -; vivia naquele mundo particular até ser vencida pelo sono; engolia lágrimas de tristeza e indignação: sobrevivi através daquela mala secreta. Medo de dormir, medo de acordar e todos terem ido embora, vagaria na imensidão vazia dos cômodos, esbarrando nos desvãos das escadas e paredes com espectros terrificantes; medo de ser novamente abandonada:

“E se abrisse a porta para o que no fundo de mim quer ser arrancado, me libertaria da perigosa atração das sombras, de tudo o que ainda me assombra como quando era criança tentando entender o mundo para nunca mais ter medo? (... ) Mais que tudo, preciso parar de ter medo de ter medos; preciso deixar de acossar-me por fantasmagóricos terrores” (Lya Luft).

Perdi o chão quando meu irmão, ao me rever após cerca de quatro anos de separação, rejeitou-me veementemente; claro que ele não podia agir de outra forma, afinal eu sofrera graves transformações, sobretudo de ordem física; quando nos separamos, eu era uma menininha rechonchuda e rosada, alegre e travessa; ora minha aparência esquelética e de acentuada palidez o intimidara: nada tinha a ver com minha anterior aparência. Ainda hoje, passados mais de meio século, quando recordo tal ocorrência sinto como que um soco na boca do estômago... dói... dói ainda mais porque desde então senti que sua afeição ficara para sempre perdida.

Dela nunca ouvi um só queixume, um só lamento; resignada, Babusca cuidou de nós após a tragédia que se abateu sobre nossa família; jamais permitiu que falassem mal de mamãe na nossa presença; dizia-nos sempre que tínhamos que respeitá-la porque, afinal, era nossa mãe; terminou por deixar que ela nos visitasse de vez em quando e, durante as visitas, se limitava a deixar-nos conversar sem qualquer interferência. Nunca me dei conta de quanto eu a admirava!


A única vez que a vi numa atitude de revolta, de ressentimento, foi quando certa tarde em que se arrumava para ir ensaiar no coral da igreja; por falta de outra alternativa, cortou um tomate ao meio, salpicou sal em ambas as metades e, quando ia começar a comer, eu e minha irmã pedimos um pedaço; ato contínuo, ela jogou uma metade em cima de cada uma de nós e saiu porta fora; insensíveis, não atentamos ao fato de ser aquele o único alimento que ela disporia até o seu regresso, lá pela madrugada, quando retornava feliz, trazendo as sobras da mesa do lanche que era preparado por ocasião dos ensaios.

Ela tinha o costume de amarrar o portão quando precisava sair; certo dia, chegando sem avisar, encontrei o portão amarrado; havia ido à igreja fazer a limpeza antes do ensaio do coral do qual fazia parte; desamarrei o portão, circundei a casa e fui direto à janela do meu antigo quarto, cuja taramela não lhe dava segurança; pulei a janela e, olhando em torno, reparei como o recinto estava empoeirado, desarrumado; limpei a casa, forrei a mesa com a toalha verde-água bordada em ponto cruz e coloquei um apanhado de angelônias roxinhas deliciosamente perfumadas num jarro; como ela deveria regressar somente à noite, cansada da labuta mas feliz pelo dever cumprido, preparei uma chaleira de chá-mate, que deixei no fogão para quando ela chegasse. Não imaginei que esse simples gesto de atenção iria deixá-la tão feliz, mas foi o que aconteceu: dias depois, veio visitar-me e agradeceu a minha gentil surpresa.


Ela partiu assim como vivia, serenamente, deixando-nos um legado de simplicidade e amor – sim, ela havia nos amado à sua maneira, sem alardear seus sentimentos.

Caminhava lépida, querendo antecipar aquele encontro, assomada por lembranças silenciosas das ruas e casas em seus idos encantados, buscando, de vez em quando, algo no rumo do horizonte, ofuscada pelos prismas da luz solar entre os cílios; o chão de barro vermelho sob as passadas quebrava o silêncio reinante; a casa, finalmente, encravada no mesmo cenário do passado, ainda era bela em sua rusticidade, apesar das rugas entalhadas pelo tempo. 

Entrei pela janela mal fechada do meu antigo quarto sem dificuldade. A pouca luminosidade que entrava pelas frestas da janela deixava apenas entrever a mobília, os objetos vários, tudo permanecia como antes; nessa atmosfera pesada de tanta nostalgia e solidão pressenti, intui mais do que adivinhei, a presença dela... 

...tudo o que deixou ali estava, inclusive e, principalmente, o armário velho transformado em estante, os livros ora adormecidos e que me eram proibidos na juventude... lentamente passeei os dedos sobre suas capas ressequidas e encarquilhadas, desfiz o penteado grisalho deixando os cabelos roçarem de leve os meus seios, despertando a libido há muito refreada e que, agora, perpassava meu corpo e minha alma enquanto, enfim liberta, lia os contos e poemas com incrível voracidade! Deixava, então, de ser uma menina em meio a livros, agora estes eram meus amantes.  

Enfim, nada mais me prendia naquele insondável ambiente, nem mesmo as saudosas vivências. Fechei a porta sem olhar para trás; ora o vazio em meu peito dá espaço unicamente para uma melancólica despedida.

Falando com a parede



Sem ter com quem falar, falo com a parede: 
“Sua força está na frieza como vara o tempo, observando a vida transcorrer à sua frente sem interferir, inerme que está em sua indiferença...”


Sempre que passava na estrada a caminho do colégio não conseguia deixar de olhar em sua direção e, lá estava ela, impassível, parecia estar à minha espera. 
Foi paixão à primeira vista. 
Quando dormia, ela povoava meus sonhos exibindo-se em inúmeras e variadas situações. 
Já me sentia bastante familiarizada com ela; intuía a disposição dos cômodos, como seriam as peças do mobiliário e demais componentes decorativos, o jardim do quintal dos fundos e a cisterna com um mecanismo de manivela que ficava numa quina do muro, que não podiam ser avistados pelos passantes. 
Cresci apaixonada por ela. 
Certa tarde de domingo, convidada a conhecer a família do meu namorado, jamais imaginara que era naquela casa, na casa dos meus sonhos, que eu entraria pela primeira vez... 
e ali ficaria para sempre.  

A casa vive, sinto-a pulsar; quando o forte calor do verão silencia os pássaros, suas paredes de tijolos maciços permanecem frescas e as janelas, desabitadas, abandonam-se ao bulício do vento; como uma sombra, à noite vagueio em seu interior ouvindo suas paredes gemerem em desalento, até que a luz da manhã venha afagá-las branda e ternamente...


Na lentidão das horas rememoro o curso da nossa história: afastados dos meus, o mel dos teus olhos matizam minha saudade em cada página em que estás ausente. 

 

Envolta pelas sombras de um amanhã que jamais se fará presente, refugio-me entre as paredes do meu quarto; tranco a porta e, ansiosa, espero pelo dia seguinte, embora saiba que será uma cópia fidedigna da imagem abstrata da minha morte em vida. Nostálgica, assisto o desfile dos fantasmas que rasgam a minha alma, alquebrantando-a à feição do vidro que se estilhaça no chão; nesse cenário relembro tudo o que perdi e beijo, sôfrega, os restos dos meus mortos queridos, presos na quietude dos tempos que não os abandonam. 
A ausência entrou pela minha janela antes que o vento e as intensas chuvas apagassem a tua recordação, ainda que em sonho continues a vestir as noites. Toco-me… um arrepio de nostalgia abraça-me com um sentimento profano que se cola no vazio, no espaço profundo do meu ser. A ausência transforma-se em objeto quase palpável, sentimento, pensamento, gotas salgadas de suor, olhares perdidos por entre nossos corpos, balbucios mal ouvidos e silêncios num misto de dor e alegria, vertigem a me calar os sentidos. Ausência… a ausência… a tua ausência...
Tua voz ecoou no silêncio do meu pensamento; agarrei-me à fantasia da tua lembrança tentando sair da mesmice dos meus dias em solidão; o coração descompassado, por breve instante pensei estar diante de ti, tua imagem, tão próxima, tão nítida, real... nem percebi ser pura alucinação.

Allarde... o perfume da tua ausência!

 


Solitária entre as paredes silenciosas do nosso quarto, sofro com tua ausência e me reinvento enquanto dispo, vagarosamente, minha pele da tua... mas ainda e sempre te desejo... amo-te tanto! Sem ti sou como uma casa com recantos ocultos, onde o frio é dentro... Ah, tuas mãos...com tuas mãos pressentias no vazio silente o que me falta na madrugada entre os lençóis... onde estão elas agora? Tua ausência é um abismo sob meus pés... o meu desejo de ti arrebenta em meu peito num silêncio conformado e sem ilusão alguma.




Aninhada no âmago do meu ser te adivinho na dormência dos sonhos; em êxtase, vagueio no éter por entre os acordes do teu olhar e das tuas mãos libidinosas que me fazem transpor a realidade; rompo os grilhões que me atam ao passado, aconchego-me ao sonho e adormeço em teus braços!



Num sôfrego garimpar busco alguns fragmentos com que possa me recompor; minha vida são dias de lento escoar entre as paredes frias... o lento e angustiante passar das horas, o vazio e o interminável silêncio me atormentam; nas recordações busco reviver os idos plenos de vida e magia que cederam espaço à saudade daqueles que jamais tornarão!



Saudades... daquela noite chuvosa quando nossos caminhos se cruzaram... dos nossos momentos de incontida alegria, de estreita ligação razão e coração... do seu toque suave e gostoso, dos seus beijos plenos de paixão; vagueio no tempo, revejo nossa história, até ouço a sua voz, sinto a meiguice do teu olhar de mel e o cálido do teu corpo junto ao meu.


Nossa música favorita ao fundo... pressinto-o junto a mim... será delírio?!



Os olhos semicerrados, ouço a tua voz, a sensação do firme toque da tua mão a me desbravar, deslizando na extensão do meu corpo, o arfar ofegante da tua respiração em minha nuca, o uníssono descompasso dos nossos corações... um desejo intenso me assoma, vontade de ti... preciso sentir que ainda vives... Ah, como preciso sonhar!!!



Como eu gostaria, meu amor, que tudo fosse do jeito que sonhamos! Me encantava a maneira como dimensionavas a vida... através das recordações dos momentos felizes que tivemos juntos é que ainda consigo sonhar sonhos coloridos como os matizes suaves do teu olhar... não consigo me esquecer do teu olhar, das tuas palavras amorosas plenas de compreensão... meu coração, então, se enche de azuis e lilases, transcendendo, transluzindo, transbordando... no silêncio da quietude da tarde que se finda. Tudo é tão vívido, que tenho a sensação de que o nosso amor pode atravessar a finitude do tempo.



Abro as janelas de par em par, sorvendo com indizível prazer a aragem lavada pela chuva torrencial da noite passada; um desejo intenso de você inunda meu corpo... da minha memória emergem certos odores, a leveza de toques, a certeza de um definitivo adeus... resta-me tão-somente recolher as folhas mortas arrancadas pelo vento, caídas nos desvãos da minha alma vazia.



Acomoda-me o corpo, a casa vazia; marcam-se em suas paredes nuas as chagas de pretéritas mágoas; ecoam vozes rompendo o silêncio; vultos escapam em seus desvãos, fogem à visão... acomoda-me a alma, casa vazia!...



Sinto-me vazia no caminho que deixaste ficar a meio; o corpo que te amou, invólucro precioso do sentir, está derrotado pelo sofrimento da tua perda. Permaneço sozinha ante a tua ausência; insana, sem coragem para recomeçar a viver, estou para sempre prostrada ante a tua lembrança porque te esquecer é esquecer de viver, de sonhar, de amar... como poderei esquecer quem tanto amei? Em mim ficaram tatuados o dia em que te conheci, o primeiro beijo que trocamos, o teu olhar cor de mel, doce e terno, o calor das tuas mãos a me afagar, teu jeito de caminhar, de falar, de dormir e de acordar... se eu te esquecer estarei apagando da memória a minha vida... e nada mais terá sentido!



Sem alarde, vou traçando o roteiro da minha jornada; sem olhar para trás, cansada das tuas lembranças, partirei em breve, na bagagem apenas ligeiros e necessários fragmentos do passado.



Passados mais de meio século, hoje estamos sós...  eu e a casa... uma a servir de companhia para a outra; falo às suas paredes; apesar de não ter respostas, sei que me ouve e compreende por estar impregnada por tudo o que presenciou. Intuo que nosso destino será único, entregue que estou à sua silenciosa cumplicidade, à sua voragem...